Depois de recebida a notícia que ficaríamos no hospital por tempo indeterminado a angústia tomou conta de todos os recantos do nosso corpo que ainda não haviam cedido ao cansaço. Enquanto ele dormia, nós ficámos ali na sala reservada sem trocarmos palavras, sem dormir, sem acreditar no que nos estava a acontecer. Às 8 da manhã houve mudança de turno, a enfermeira C. (um anjo na terra) veio despedir-se com a certeza de que ele ía recuperar - sempre com um sorriso de orelha a orelha! O Dr. H.F. também se despediu e disse que o colega Dr. P. vinha ter connosco em breve...
Por volta do meio-dia o Xavi acordava lentamente e chamámos o Dr. P. que o iria observar. Depois de ter visto uma otite, olhou para a garganta e para os olhos, mexeu-lhe o pescoço, as pernas, os braços... Tudo isto num silêncio profundo. Terminada a "vistoria", afirma: «-Em princípio o bebé não terá qualquer dano neurológico!». Uffffffffaaaaaa, que grande alívio... Foi tão bom ouvir aquelas palavras, um verdadeiro «sopro no coração». De qualquer forma avisou-nos que o tratamento anti-viral era fundamental para a recuperação e que o nosso bebé estava com as "defesas em baixo" (glóbulos brancos) e que isso era um motivo de preocupação. Estariamos assim em «isolamento protetor» de modo a prevenir que o Xavi fosse sujeito a mais algum vírus ou bactéria que o debilitasse ainda mais. Como não havia quartos disponíveis no S.O (Serviço de Observação Pediátrica) iriamos ser transferidos para o Internamento de Pediatria, mas teriamos de aguardar naquela sala das Urgências. Ali ficámos prostrados, a olhar para o tecto, quando de repente irrompe por ali a dentro um médico das Urgências com um miúdo de 6/7 anos pela mão (dos tais que vomitavam sem parar...) e me diz: «-Vou pedir que fique aqui apenas um dos acompanhantes porque não há macas e temos de pôr aqui este menino!». Boquiaberta, devo ter feito a minha cara número 33... e ele ripostou: «-O que é que é? Isto é mesmo assim... Não fique com essa cara olhando para mim, não.» (imaginem todo o discurso com sotaque brasileiro). Neste momento explodi, já com lágrimas a escorrerem cara abaixo: «-Estamos aqui desde a meia-noite, recebemos um diagnóstico de meningite, não dormimos há mais de 24 horas...(pausa)... mas tudo bem (e passei-lhe a mão no ombro)». O João explode também e diz-lhe: «-Então mas o nosso bebé está com as defesas em baixo e vocês vão juntá-lo com alguém?!? Ele precisa de dormir e vocês só fazem barulho, estamos à espera do internamento e estamos aqui nas Urgências abandonados...». E o médico responde: «-Mas nós já estamos dando o apoio necessário...». Ao que eu respondo já de mala aviada para sair: «-E quem é que dá apoio aos pais?!?».
Esta continua a ser a grande questão que me assola: «-Quem é que dá apoio aos pais?!?». Durante o tempo do internamento as auxiliares (em especial a D. Margarida), as enfermeiras e os médicos fizeram o que podiam pelo bebé... mas e os pais?!? Ninguém nos bateu à porta do quarto e nos perguntou como é que nos sentíamos, ninguém veio racionalizar os nossos medos e vê-los de fora. Em cinco dias, ninguém veio... Era assim sempre: eu, ele, o bebé e os nossos medos a ocuparem o quarto todo por inteiro.
Quarto 18/19. Quando cheguei (depois de ir a casa tomar banho) já a avó B. tinha saído. Segundo disse o pai, muito incomodada com o papel colado na porta que dizia: «Isolamento Protetor». A maioria das pessoas nos corredores fugia de nós com medo de apanhar alguma coisa. Não percebiam que era ao contrário: nós é que estávamos sujeitos a que o bebé enfraquecesse. À noite (entre as 22h e as 8h) só pode pernoitar um dos pais... foi um sufoco para mim regressar a casa e não a sentir minha... parecia um fantasma... Quando me fui deitar tentava dormir e acordava em sobressalto e em pânico, enviava mensagens ao pai e lá consegui dormitar três horinhas. O domingo de Páscoa foi tranquilo: a médica que o veio observar disse que era normal ele dormir muito mas perguntou se ele poderia ter tido acesso a medicamentos, respondemos em uníssono: «impossível!»; almoçámos «ensopado de borrego» que a avó L. nos preparou; e o Xavi dormia, acordava bem-disposto e brincava, comeu sopa, comeu sozinho o 2.º prato, enfim... parecia estar tudo normal. Tão normal que resolveram tirar-lhe o soro. Essa noite a mamã ficou com o bebé que adormeceu profundamente à 1 da manhã. A mamã conseguiu dormir também entre as 2 e as 5.
Na manhã seguinte o Dr. O.F. veio com um diagnóstico diferente: as análises ao sangue do Xavi acusavam anti-depressivos. O quê?!? Como?!? Dissemos que isso era completamente impossível: ninguém nas nossas famílias toma anti-depressivos e por isso começámos a fazer filmes muito, muito dramáticos... Foi uma angústia tremenda... Tirando as primeiras horas nas urgências este foi o segundo momento mais aflitivo! Foi por esta altura que me fui a baixo, fui para a rua espairecer e tentar falar com o pediatra dele. Disseram-me que estava de férias mas que no dia seguinte nos iria visitar ao hospital... Naquela altura perdi a confiança nos médicos, achei que andavam «aos papéis», a tirar «nabos da púcara» e a «atirar postas de pescada» a ver se acertavam... Que revolta imensa! À tarde recebemos a visita da magnífica enf.ª C. a quem contámos as nossas angústias, ao que ela responde com uma gargalhada enorme: «-Ahahahahhahahahahahah quais anti-depressivos?!? As análises dele acusaram foi a dose cavalar de sedativos que tivemos de lhe dar... Ahahahahahhahahahahhahahaha». Ufffffffffffaaaaaaaa que alívio! Acham normal?!? Tinham-se esquecido de mencionar no processo que o bebé tinha sido sedado para fazer os exames... Inacreditável!
Quando vi a Dr.ª R. no corredor transmiti-lhe a mensagem mas passámos o resto do dia sem um pedido de desculpas ou uma explicação. Algures neste período de tempo voltaram a pedir análises: novo saco para a urina e nova picada para recolherem sangue. Na sala do Nemo, da Dóris e do tubarão esfomeado... Já ao final da tarde o pai já estava muito revoltado e começou a confrontar a enfermeira: «-O nosso bebé não come há 24 horas, ninguém lhe volta a pôr o soro, já vomitou e ninguém faz nada, só dorme... Onde é que andam os médicos?!? Queremos que alguém nos venha dizer alguma coisa...». A enfermeira viu-se obrigada a chamar os médicos que estavam nas urgências... Chegaram duas médicas a pedir desculpa pelo sucedido e a explicar os sintomas de uma «meningo-encefalite viral». Este era então o cenário... «-É normal que ele durma muito pois o cérebro está a recuperar. Normalmente o pior é quando ocorre alguma convulsão nas primeiras 24 horas. Eu própria tenho um filho com 4 anos que recuperou totalmente de uma encefalite viral. (...)». Voltei a panicar! Ao contrário do que seria normal em mim, não fui a correr para a internet à procura da doença, de testemunhos... nada... fiquei assim, só, a pedir que por favor não fosse nada daquilo. Voltaram a colocar-lhe o soro e por isso o regresso a casa parecia ficar cada vez mais inalcançável... Esta noite o pai voltou a ficar e eu vim para casa fazer «filmes».
Já era terça-feira e a esperança de sairmos dali em breve estava muito reduzida. O papá contou que a noite tinha sido muito agitada e que não tinha dormido nada... [abro aqui um parêntesis para dizer que o pai foi mesmo o melhor pai e marido do mundo, sempre pronto, sempre crente, sempre carinhoso, sempre o melhor!] Já eram umas 11 da manhã e de repente o Xavi acorda rabugento, vê o Mickey no computador, come uma papa e pede para ir para a cama. Nisto o Dr. O.F. chega, olha para ele e diz-nos para lhe calçarmos os sapatos porque ele queria vê-lo a andar... Assim fizemos... Quando abrimos a porta para o corredor ele correu-o de uma ponta à outra em menos de nada. O Dr. disse: «-Já vi o que queria ver!». Pouco tempo depois foi ter connosco e disse-nos que lhe ía dar alta... «-Vão para casa ele continua a tomar o Zovirax, em xarope, até 2.ª feira e depois vão ao pediatra dele. O Victor que o ature!!!».
Foi uma surpresa enorme... de um momento para o outro estávamos quase em casa... Que bom! Antes de irmos embora ainda perguntámos ao médico qual era o diagnóstico definitivo, o que é que ele tinha tido... ao que ele responde: «-Um vírus! Está a fazer tratamento para o vírus "a herpes" mas na minha opinião a causa poderá ter sido um enterovírus... Nunca saberemos ao certo... O que interessa é que ele recuperou as defesas e está a lutar sozinho...». E assim ficámos: sem certezas de nada e com muitas dúvidas... Estou ansiosa que chegue 2ª feira para colocá-las todas ao pediatra dele.
Aparentemente o Xavi está totalmente recuperado... Brinca muito, fala pelos cotovelos [no hospital aprendeu imensas palavras e até frases: «nã qué pã»/«não quero pão»], faz as birras normais para a idade, dorme uma sesta à tarde, come imenso [até fruta, banana que não comia desde os 10 meses e maçã reineta, que nunca tinha provado] mas na nossa opinião de pais a marcha não voltou ao que era... Parece que regrediu... de qualquer forma é uma falha muito ligeira, quem não o conhecia nunca se aperceberá... Foi um valente susto mas saiu-nos o «euromilhões» quando o diagnóstico inicial não se confirmou. Renascemos assim mais fortes!
Beijinhos enormes para todos os pais que passam/passaram pelo mesmo,
para todos os que nos apoiaram,
para o melhor pai do mundo,
para o bebé lutador...
T*******