Termina hoje o episódio da doença... Não vos vou massacrar mais com este relato dos dias infernais porque passámos, mas achei necessária esta adenda àquilo que vos descrevi.
O Xavi hoje voltou ao infantário: o pai teve de ir trabalhar mas eu tirei o dia para estar por perto, caso fosse necessário «socorrê-lo». Cheguei pouco depois das 9h e lá estavam todos os meninos na sala com as auxiliares e a educadora da outra sala: ele chorou, ele esperneou, ele agarrou-se ao meu pescoço a chorar, ele pegou na minha mão e arrastou-me até ao corredor... Não foi fácil... Para além disso estive a reviver os momentos do internamento, ao explicar toda a história a esta educadora. E foi nessa altura que verbalizei aquilo que aqui me esqueci de dizer:
«-É horrível sentirmos que o nosso filho já não se parece com o nosso filho. É como se não o reconhecêssemos nas atitudes e na presença... Essa é mesmo a pior parte!»
Quando nos falam pela primeira vez na palavra «meningite» o pensamento leva-nos automaticamente para a morte e logo de seguida vêm as deficiências profundas. Sim, toda a gente conhece um caso de alguém que tinha um filho normal e que de um momento para outro ficou incapacitado pela doença. No meu caso por exemplo lembro-me perfeitamente do meu «caso ilustrativo»...
O meu irmão quando era bebé teve alguns episódios de convulsão febril. Para quem desconhece: as febres são altíssimas e o corpo reage com o revirar dos olhos, a espuma na boca, pele arroxeada. Enfim... eu costumo dizer que entre os 10 e os 12 anos vi o meu irmão «morrer» algumas vezes. A minha mãe era atormentada pela filha de uns vizinhos do meu prédio que tinham uma filha com uns 6/7 anos que tinha ficado com deficiências profundas devido a uma meningite. E eu também vivi com esse terror!
Esses medos não eram infundados... eles crescem enormemente quando estamos realmente a passar pela situação! A falta de diagnóstico naquelas horas de pouca informação não foi o mais grave, o pior foi ver o Xavi totalmente diferente do que costuma ser: batia em toda a gente, pontapeava, dava socos e tentava arrancar o cateter... Eu com o pânico chorava e puxava os cabelos de cada vez que ele se tornava muito agressivo... Afagava-lhe o cabelo e dizia-lhe: «-Filho, por favor... estás a assustar-me! Pára...». Como se ele me estivesse a ouvir... Estava num outro mundo e é isso que assusta: como se ele não estivesse presente, não nos reconhecesse e nós não o reconhecêssemos a ele.
No dia seguinte fui para o hospital carregada de coisas que o pudessem estimular, mas ele só dormia... e eu só o queria ver acordado para garantir que ele estava mesmo bem. Quando acordou pus-lhe logo um daqueles jogos de encaixar formas à frente para ele fazer... e ele encaixou todas as peças! Fiquei tão imensamente feliz! Andar ainda não andava, mas ao menos estava coordenado: até comeu sozinho nesse dia. Foram estas pequenas vitórias que foram dando alento aos dias e fizeram com que me convencesse que tudo não teria passado de um enorme susto!
Neste momento o meu pensamento está com uma mãe que está com o seu filho internado... Quero imensamente, com todas as minhas forças, que muito em breve ela também possa relatar as vitórias do seu bebé lutador... Força, muita força!